Andei no
meio-fio e senti aquilo que seria o adeus. Lembrei de todos os anos
naquele lugar, desde ainda criança, quando descobri a liberdade no
correr entre as árvores, até o dia em que comemorei o dez tirado na
monografia. Foram treze anos, mais da metade da minha vida, e mesmo
assim não levo nenhuma dor e nenhuma saudade, apenas lembranças.
Lembranças dos porres tomados em dias de chuva enquanto a amiga
acendia o baseado, dos piqueniques embaixo da árvore, do dia em que fechamos o CCV, dos dias em que
protestamos na reitoria, das tardes de sono sobre as mesas da
biblioteca, do pôr-do-sol que de lá podia se ver, da peregrinação
em busca de manjelão, das meninas que me odiavam, dos amigos que me
amavam, de mais uma peregrinação em busca de lanche barato, das
colas engraçadas, dos pulos do trampolim, dos professores
militantes, das peças que eram quase espetáculos, do dia em que me
vi como excedente no vestibular, do dia em que passei no vestibular e lá
estava eu denovo, das aulas embaixo do bambuzal, dos cafés no Beto,
das discussões, do silêncio, do assassinato do bambuzal, do dia em
que dancei quadrilha em frente à didática I, dos porres na Vera, do
cansaço, da correria, do amigo de desencontro, dos beijos na
biblioteca, da espera por mais beijos, do dia em que tiraram Tia
Salete, do sofrimento com a monografia, do dez decisivo, do último
porre sem a Vera.
E o adeus
veio como uma brisa fria e suave no verão, daquelas que só se sente
num São Cristóvão de inverno, enquanto eu pisava na lama de uma
enorme cratera no asfalto.