14 de nov. de 2010

Descompasso

Simplesmente cansei.

Cansei da escravidão que meu corpo se submete,

da mente corrompida pelas algemas

que estabilizam a lógica da minha existência desordenada.

Estou comprimida, sufocada, transformada em vazio.

Não penso, apenas existo,

e perdida ainda espero chegar em algum lugar.

Procuro minha autonomia escondida, a chave para a fuga,

o foda-se entalado na garganta.

Para poder acordar desse coma,

dessa força sem vetor.

7 de nov. de 2010

Movimento sem deslocamento

Olhou-se no espelho e descobriu que não era mais criança. Teve medo, estava envelhecendo e sua vida parecia não correr na direção que queria. Limitava-se a esperar: a faculdade terminar, arranjar um emprego melhor, juntar dinheiro e ir embora para algum lugar frio e distante. Puras abstrações, muitos até diriam que fáceis de conquistar, mas ela queria ser presente, e não se contentava em jogar sua felicidade na roleta de um futuro desconhecido.
Pela primeira vez em um mês parou para sentir a brisa fresca do morro onde ficava o imenso labirinto de confinamento de corpos doentes. Enquanto tomava seu café era puro sentimento e melodia. Ao lado ficava a ala vermelha, a janela próxima ao teto dava a noção do seu interior. Pensou se seria proibido ou anti-ético fumar naquele local, aquele espaço à noite pedia uns tragos, mas como nunca tinha um à mão a vontade se transformava em delírio poético de suspiros.
Ao longe podia avistar a rodoviária. Aquele momento sublime e singular a comovia. Por que prendia-se às correntes de uma vida vaga e sem sentido? Há vida lá fora, há emoção em deslocamento. Podia simplesmente subir num sonho e ver no que dava, correndo os riscos e descobrindo outras formas de felicidade. Mas estava ali, estava estática, imóvel, limitando-se à felicidade de um gole de café (é... a felicidade também pode ser simples assim.).
Misturava-se ao vento, à brisa, à esperança e ao desconhecido. Fez daquele momento toda sua vida. Despedia-se daquele lugar de muros e doentes, mágico pelo ritmo que dava ao seu cotidiano. Só teria mais uma noite por lá, na próxima semana ele se transformaria em luz e calor, e não seria mais o mesmo.
Sua derme parecia agradecer aquele encontro. Saiu mais leve, em si mesma. Sentia a sua singularidade à flor da pele. Não tinha a quem agradecer, a Deus, ao acaso, a existência. Estava só. E sem desculpas.

2 de nov. de 2010

Ensaio no labirinto

Ela caminhava pelas alas do hospital, entre odores e secreções expelidos pelos doentes, muitos com parte do corpo em putrefação pela demora em se fazer a cirurgia. E era neutra, e não sentia dor, e esse não sentir a incomodava. Pisava cuidadosamente no piso que acumulava partículas de doença. Corredor vazio, silêncio e agonia. De vez em quando uma olhadela para os quartos da enfermaria. Cada um com sua dor, seu sofrimento.

Desceu a escada no final do corredor, e enquanto descia pensava na sua implicação com o lugar. Por que aquela situação parecia não incomodar tanto? Por que mesmo vendo todos aqueles problemas de um hospital público não tinha forças para lutar? O silêncio daquele lugar comprimia o seu corpo, tudo perto para ser visto, mas as imagens se tornavam embaçadas e desconexas. De leve o corpo se tornara cada vez mais pesado, e ela desaprendia a andar. Com dificuldade chegou ao refeitório que se localizava no fundo do hospital. A caminhada longa foi compensada com goles de café.

Na volta sentiu o seu corpo flutuar, enquanto a brisa gelada tocava sua pele, braços, rosto e nuca. Os goles de café, a brisa, o caminhar calmo e velejante, tudo aquilo pedia alguns tragos de cigarro. Seu corpo desejava um pouco de toxina, um pouco de vida abstrata e irracional. Mas não tinha nenhum ali, e apenas podia imaginar como seria bom.

***

De volta à escada, às interrogações, ao corredor. Os familiares agora se amontoavam em uma parte da ala, ficando mais difícil atravessar aquele compartimento. Passadas cautelosas, pouca inspiração e mais expiração, tapar o copo de café com a mão, desviar dos familiares e enfermeiros sem encostar em nada. Uma verdadeira maratona sem premiação.

Ao final da ala 200 entrou à esquerda e se livrou dos corredores das enfermarias (essas curvas são sempre perigosas, pois corre-se o risco de trombar com uma maca, um carrinho de alimentação ou de lixo, e até mesmo um médico - coisa muito rara, visto tratar-se de um hospital público). Seus pensamentos e questionamentos brotavam independentes de sua vontade, enquanto voltava ao seu refúgio-sala-cela-cubículo.

Passou pelos relógios de ponto com suas luzes verdes à piscar, e sem hesitar olhou as horas – 22h41 –, embora soubesse que só sairia dali na manhã do dia seguinte. Logo mais à frente estava o guarda-volumes onde pessoas conversavam, mas como já havia dado boa noite na primeira vez que passou resolveu não falar nada e tomou seu rumo. Sua sala ficava em frente à recepção da administração, mais pontos eletrônicos piscando na parede, salas fechadas, luzes apagadas, uma pessoa fumando na janela a uns quatro metros enquanto conversava com outra que estava no lado de fora.

Entrou. Sentou-se ali e se viu só. Mas a solidão era sua amiga de longas datas, e aquilo foi tão reconfortante quanto desesperador.