23 de jan. de 2011

Libertando o olhar

Faltava-lhe um braço, mas logo este surgiu junto com o pedaço da manga do vestido. De subto sentiu o pincel encostar seu rosto, o que lhe fez corar pelas cócegas coloridas. As pinceladas rápidas produziam um mundo ao seu redor, a forma indefinida das copas das árvores se misturavam ao azul cobalto do céu.

Não sei ao certo o que Cézanne escutava naquela manhã, sei que a melodia doce lembrava uma aquarela ainda úmida pelo recente toque da água. Trabalhava os cabelos dela com bastante afinco, e na leveza de cada fio descobriu que à medida que se pinta, desenha-se. Como raios de sol, os fios se transformavam em pássaros, que de longe podiam avistar o futuro à sua frente. A fuga da representação produzia traços tortos, sem perspectiva e ponto-de-fuga, o olhar se punha a trabalhar, e sem pestaneja Cézanne pintava o cheiro das árvores.

O tempo se move junto com a imagem, e ela se vê em movimento estático. Sentia-se feliz por fazer parte de um mundo sensível ao coração, já não sentia o vigor da vida desde que havia presenciado a última tragédia grega, e agora, nesse espaço heterogêneo, seria eternamente vida.

2 de jan. de 2011

Conversando com Merleau-Ponty

Umas boas espreguiçadas e logo ela está prestes a ligar o rádio numa manhã preguiçosa de sábado, preguiçosa por não ter a infiel liberdade do domingo que, não tendo muito a oferecer, nos convida a permanecermos presos as correntes macias dos lençóis. E então é sábado, café no fogo, o rádio é ligado enquanto se escolhe o que fazer, basta alguns comerciais para que ela perceba estar na França de 1948. O vento do outono adentra a janela e um pensamento irrompe, tenta capturá-lo, mas não, não é um pensamento, é a voz de Merleau-Ponty saindo por dentre as caixas de som e ressoando naquilo que ela chama de interior. O programa convida “a formação do pensamento”, e ela já escolheu, corpo e mente atentos, xícara de café na mão, a poltrona toma a forma de um abraço.

Os olhos tomam o seu descanso, os cílios se tocam, e de subto ela os abre e se deixa viver. Sem cálculos ou instrumentos, seu olho capta o exterior, o passarinho que pousa na janela, os fios de alta tensão que cruzam o poste e se destacam no azul do céu. Saindo pelo rádio Merleau-Ponty questiona: “O mundo que nos é revelado por nossos sentidos e pela experiência de vida é o que melhor conhecemos?” Uma crença é quebrada junto com a xícara derrubada pela surpresa da pergunta, nessa hora ela acorda e vê que o mundo é em grande medida ignorado por nós enquanto permanecemos numa postura prática e utilitária. Quantos esforços foram necessários ao longo do tempo para poder desnudar este mundo? Merleau-Ponty pede um Viva à arte e ao pensamento moderno dos últimos setenta anos, pela luta travada na tentativa de nos fazer descobrir esse mundo em que vivemos mas que somos sempre tentados a esquecer.