31 de jan. de 2012

Uma vida


Andei no meio-fio e senti aquilo que seria o adeus. Lembrei de todos os anos naquele lugar, desde ainda criança, quando descobri a liberdade no correr entre as árvores, até o dia em que comemorei o dez tirado na monografia. Foram treze anos, mais da metade da minha vida, e mesmo assim não levo nenhuma dor e nenhuma saudade, apenas lembranças. Lembranças dos porres tomados em dias de chuva enquanto a amiga acendia o baseado, dos piqueniques embaixo da árvore, do dia em que fechamos o CCV, dos dias em que protestamos na reitoria, das tardes de sono sobre as mesas da biblioteca, do pôr-do-sol que de lá podia se ver, da peregrinação em busca de manjelão, das meninas que me odiavam, dos amigos que me amavam, de mais uma peregrinação em busca de lanche barato, das colas engraçadas, dos pulos do trampolim, dos professores militantes, das peças que eram quase espetáculos, do dia em que me vi como excedente no vestibular, do dia em que passei no vestibular e lá estava eu denovo, das aulas embaixo do bambuzal, dos cafés no Beto, das discussões, do silêncio, do assassinato do bambuzal, do dia em que dancei quadrilha em frente à didática I, dos porres na Vera, do cansaço, da correria, do amigo de desencontro, dos beijos na biblioteca, da espera por mais beijos, do dia em que tiraram Tia Salete, do sofrimento com a monografia, do dez decisivo, do último porre sem a Vera.

E o adeus veio como uma brisa fria e suave no verão, daquelas que só se sente num São Cristóvão de inverno, enquanto eu pisava na lama de uma enorme cratera no asfalto.  

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