6 de jun. de 2012

Das desconexões que se conectam

De Certeau lê Foucault
e sem querer forma uma rima.
O livro que lê revela a De Certeau
o que o leitor vê como prolongamento.
A dor de cabeça descompassa,
quebra as ligações,
e um novo ritmo é dado a leitura:
o ritmo da caneta no papel.

Notícias no jornal,
singularidades vazias?
Dúvida surge no momento da escrita,
aquilo que ficou atravessado ao ler De Certeau.

Ansiedade e dor de cabeça põem dúvida ao continuar.
Para dor de cabeça um remédio,
para ansiedade uma problematização de mim mesma.
Uma fuga da biopolítica ou bom senso?
Os dois talvez, ou nenhum deles.

Medo das obrigações, das pausas,
das paradas que produzem desconexões.
Não saber ao certo por onde começar, o que começar.
E o começo é a dúvida,
e quem sabe também o fim.

10 de mai. de 2012

A lua e ela

E então ele a presenteou
com uma lua sobre o viaduto,
dourada, sublime
ela apenas sentia.

31 de jan. de 2012

Uma vida


Andei no meio-fio e senti aquilo que seria o adeus. Lembrei de todos os anos naquele lugar, desde ainda criança, quando descobri a liberdade no correr entre as árvores, até o dia em que comemorei o dez tirado na monografia. Foram treze anos, mais da metade da minha vida, e mesmo assim não levo nenhuma dor e nenhuma saudade, apenas lembranças. Lembranças dos porres tomados em dias de chuva enquanto a amiga acendia o baseado, dos piqueniques embaixo da árvore, do dia em que fechamos o CCV, dos dias em que protestamos na reitoria, das tardes de sono sobre as mesas da biblioteca, do pôr-do-sol que de lá podia se ver, da peregrinação em busca de manjelão, das meninas que me odiavam, dos amigos que me amavam, de mais uma peregrinação em busca de lanche barato, das colas engraçadas, dos pulos do trampolim, dos professores militantes, das peças que eram quase espetáculos, do dia em que me vi como excedente no vestibular, do dia em que passei no vestibular e lá estava eu denovo, das aulas embaixo do bambuzal, dos cafés no Beto, das discussões, do silêncio, do assassinato do bambuzal, do dia em que dancei quadrilha em frente à didática I, dos porres na Vera, do cansaço, da correria, do amigo de desencontro, dos beijos na biblioteca, da espera por mais beijos, do dia em que tiraram Tia Salete, do sofrimento com a monografia, do dez decisivo, do último porre sem a Vera.

E o adeus veio como uma brisa fria e suave no verão, daquelas que só se sente num São Cristóvão de inverno, enquanto eu pisava na lama de uma enorme cratera no asfalto.  

17 de jan. de 2012

Pontuando-me


Queria ser uma incógnita, um ponto de interrogação. Mas para você sou um livro aberto com letras graúdas, não sendo necessário o espremer dos olhos ou o palpitar do coração quando por curiosidade se quer ler uma das páginas. Talvez de mim exale confiança, uma confiança tão venenosa que chega a impedir o crescimento e a perpetuação do medo em seu muro de bases sólidas. Ainda que carregue em mim as curvas, você me vê como um ponto de exclamação. Retilínea, riste. E sou. Sou o espanto, a surpresa, a emoção, e você me vê exatamente desse jeito.

Ao me doar esqueci os pontos finais e passei a viver de reticências...

11 de jan. de 2012

Despedaçada


Foram seis anos de luta, de muitas quedas e arranhões, algumas cicatrizes ficaram para contar história, como prova de que tudo não foi apenas um sonho. Mas agora finalmente é possível sentir a brisa no topo da montanha e ver lá de cima o abismo que chama e sufoca. Esses anos todos não passaram de uma longa espera para sentir essa vertigem, o medo e a angústia de estar no topo, na ponta do abismo. De inicio planeja-se como será a queda, tentando imaginar a melhor maneira de quebrar o menor número de ossos. Para alguns o abismo não dá medo, pois a família abastarda ou o QI à espera dão-lhes o melhor paraquedas, de forma que a queda não passa de puro divertimento. Para quem não tem o devido paraquedas, resta o sabor amargo dos últimos minutos, o suor gelado e os tremores das batidas do coração que percorrem o corpo. Não há escolha, algo há de ser quebrado, e na melhor das hipóteses esse algo é a cara.

É hora de assumir os riscos.

1 de jan. de 2012

2012


Na fila de espera, o senhor de cabelos brancos e pele rosada assoviava uma música erudita. Embora não fosse possível identificar aquela composição, o dia ganhou uma outra tonalidade. Aquele presente se eternizou e ficou marcado nas células, nos poros e na memória. Um ano atrás um velhinho esquálido sorri na maca, o cheiro forte de sangue e sujeira do pronto de socorro não consegue se sobrepor aquele momento que hoje se mistura ao assoviar na fila de espera. Duas singularidades, dois Acontecimentos, figuras de um passado-presente que agora se transforma em futuro. Que os dias e as horas venham, e que seja doce.