De Certeau lê Foucault
e sem querer forma uma rima.
O livro que lê revela a De Certeau
o que o leitor vê como prolongamento.
A dor de cabeça descompassa,
quebra as ligações,
e um novo ritmo é dado a leitura:
o ritmo da caneta no papel.
Notícias no jornal,
singularidades vazias?
Dúvida surge no momento da escrita,
aquilo que ficou atravessado ao ler De Certeau.
Ansiedade e dor de cabeça põem dúvida ao continuar.
Para dor de cabeça um remédio,
para ansiedade uma problematização de mim mesma.
Uma fuga da biopolítica ou bom senso?
Os dois talvez, ou nenhum deles.
Medo das obrigações, das pausas,
das paradas que produzem desconexões.
Não saber ao certo por onde começar, o que começar.
E o começo é a dúvida,
e quem sabe também o fim.
Vida em devir
6 de jun. de 2012
10 de mai. de 2012
A lua e ela
E então ele a presenteou
com uma lua sobre o viaduto,
dourada, sublime
ela apenas sentia.
com uma lua sobre o viaduto,
dourada, sublime
ela apenas sentia.
8 de mai. de 2012
31 de jan. de 2012
Uma vida
Andei no
meio-fio e senti aquilo que seria o adeus. Lembrei de todos os anos
naquele lugar, desde ainda criança, quando descobri a liberdade no
correr entre as árvores, até o dia em que comemorei o dez tirado na
monografia. Foram treze anos, mais da metade da minha vida, e mesmo
assim não levo nenhuma dor e nenhuma saudade, apenas lembranças.
Lembranças dos porres tomados em dias de chuva enquanto a amiga
acendia o baseado, dos piqueniques embaixo da árvore, do dia em que fechamos o CCV, dos dias em que
protestamos na reitoria, das tardes de sono sobre as mesas da
biblioteca, do pôr-do-sol que de lá podia se ver, da peregrinação
em busca de manjelão, das meninas que me odiavam, dos amigos que me
amavam, de mais uma peregrinação em busca de lanche barato, das
colas engraçadas, dos pulos do trampolim, dos professores
militantes, das peças que eram quase espetáculos, do dia em que me
vi como excedente no vestibular, do dia em que passei no vestibular e lá
estava eu denovo, das aulas embaixo do bambuzal, dos cafés no Beto,
das discussões, do silêncio, do assassinato do bambuzal, do dia em
que dancei quadrilha em frente à didática I, dos porres na Vera, do
cansaço, da correria, do amigo de desencontro, dos beijos na
biblioteca, da espera por mais beijos, do dia em que tiraram Tia
Salete, do sofrimento com a monografia, do dez decisivo, do último
porre sem a Vera.
E o adeus
veio como uma brisa fria e suave no verão, daquelas que só se sente
num São Cristóvão de inverno, enquanto eu pisava na lama de uma
enorme cratera no asfalto.
17 de jan. de 2012
Pontuando-me
Queria
ser uma incógnita, um ponto de interrogação. Mas para você sou um
livro aberto com letras graúdas, não sendo necessário o espremer
dos olhos ou o palpitar do coração quando por curiosidade se quer
ler uma das páginas. Talvez de mim exale confiança, uma confiança
tão venenosa que chega a impedir o crescimento e a perpetuação do
medo em seu muro de bases sólidas. Ainda que carregue em mim as
curvas, você me vê como um ponto de exclamação. Retilínea,
riste. E sou. Sou o espanto, a surpresa, a emoção, e você me vê
exatamente desse jeito.
Ao me
doar esqueci os pontos finais e passei a viver de reticências...
11 de jan. de 2012
Despedaçada
Foram
seis anos de luta, de muitas quedas e arranhões, algumas cicatrizes
ficaram para contar história, como prova de que tudo não foi apenas
um sonho. Mas agora finalmente é possível sentir a brisa no topo da
montanha e ver lá de cima o abismo que chama e sufoca. Esses anos
todos não passaram de uma longa espera para sentir essa vertigem, o
medo e a angústia de estar no topo, na ponta do abismo. De inicio
planeja-se como será a queda, tentando imaginar a melhor maneira de
quebrar o menor número de ossos. Para alguns o abismo não dá medo,
pois a família abastarda ou o QI à espera dão-lhes o melhor
paraquedas, de forma que a queda não passa de puro divertimento.
Para quem não tem o devido paraquedas, resta o sabor amargo dos
últimos minutos, o suor gelado e os tremores das batidas do coração
que percorrem o corpo. Não há escolha, algo há de ser quebrado, e
na melhor das hipóteses esse algo é a cara.
É hora
de assumir os riscos.
1 de jan. de 2012
2012
Na fila
de espera, o senhor de cabelos brancos e pele rosada assoviava uma
música erudita. Embora não fosse possível identificar aquela
composição, o dia ganhou uma outra tonalidade. Aquele presente se
eternizou e ficou marcado nas células, nos poros e na memória. Um
ano atrás um velhinho esquálido sorri na maca, o cheiro forte de
sangue e sujeira do pronto de socorro não consegue se sobrepor
aquele momento que hoje se mistura ao assoviar na fila de espera.
Duas singularidades, dois Acontecimentos, figuras de um
passado-presente que agora se transforma em futuro. Que os dias e as
horas venham, e que seja doce.
Assinar:
Comentários (Atom)