Olhou-se no espelho e descobriu que não era mais criança. Teve medo, estava envelhecendo e sua vida parecia não correr na direção que queria. Limitava-se a esperar: a faculdade terminar, arranjar um emprego melhor, juntar dinheiro e ir embora para algum lugar frio e distante. Puras abstrações, muitos até diriam que fáceis de conquistar, mas ela queria ser presente, e não se contentava em jogar sua felicidade na roleta de um futuro desconhecido.
Pela primeira vez em um mês parou para sentir a brisa fresca do morro onde ficava o imenso labirinto de confinamento de corpos doentes. Enquanto tomava seu café era puro sentimento e melodia. Ao lado ficava a ala vermelha, a janela próxima ao teto dava a noção do seu interior. Pensou se seria proibido ou anti-ético fumar naquele local, aquele espaço à noite pedia uns tragos, mas como nunca tinha um à mão a vontade se transformava em delírio poético de suspiros.
Ao longe podia avistar a rodoviária. Aquele momento sublime e singular a comovia. Por que prendia-se às correntes de uma vida vaga e sem sentido? Há vida lá fora, há emoção em deslocamento. Podia simplesmente subir num sonho e ver no que dava, correndo os riscos e descobrindo outras formas de felicidade. Mas estava ali, estava estática, imóvel, limitando-se à felicidade de um gole de café (é... a felicidade também pode ser simples assim.).
Misturava-se ao vento, à brisa, à esperança e ao desconhecido. Fez daquele momento toda sua vida. Despedia-se daquele lugar de muros e doentes, mágico pelo ritmo que dava ao seu cotidiano. Só teria mais uma noite por lá, na próxima semana ele se transformaria em luz e calor, e não seria mais o mesmo.
Sua derme parecia agradecer aquele encontro. Saiu mais leve, em si mesma. Sentia a sua singularidade à flor da pele. Não tinha a quem agradecer, a Deus, ao acaso, a existência. Estava só. E sem desculpas.
Só somos SOS.
ResponderExcluir"Tua orelha num frêmito desnuda-se:
ResponderExcluirO que seria
O que seria que te disse o vento?!"
[do teu Quintana][hai-kai da primavera]