2 de nov. de 2010

Ensaio no labirinto

Ela caminhava pelas alas do hospital, entre odores e secreções expelidos pelos doentes, muitos com parte do corpo em putrefação pela demora em se fazer a cirurgia. E era neutra, e não sentia dor, e esse não sentir a incomodava. Pisava cuidadosamente no piso que acumulava partículas de doença. Corredor vazio, silêncio e agonia. De vez em quando uma olhadela para os quartos da enfermaria. Cada um com sua dor, seu sofrimento.

Desceu a escada no final do corredor, e enquanto descia pensava na sua implicação com o lugar. Por que aquela situação parecia não incomodar tanto? Por que mesmo vendo todos aqueles problemas de um hospital público não tinha forças para lutar? O silêncio daquele lugar comprimia o seu corpo, tudo perto para ser visto, mas as imagens se tornavam embaçadas e desconexas. De leve o corpo se tornara cada vez mais pesado, e ela desaprendia a andar. Com dificuldade chegou ao refeitório que se localizava no fundo do hospital. A caminhada longa foi compensada com goles de café.

Na volta sentiu o seu corpo flutuar, enquanto a brisa gelada tocava sua pele, braços, rosto e nuca. Os goles de café, a brisa, o caminhar calmo e velejante, tudo aquilo pedia alguns tragos de cigarro. Seu corpo desejava um pouco de toxina, um pouco de vida abstrata e irracional. Mas não tinha nenhum ali, e apenas podia imaginar como seria bom.

***

De volta à escada, às interrogações, ao corredor. Os familiares agora se amontoavam em uma parte da ala, ficando mais difícil atravessar aquele compartimento. Passadas cautelosas, pouca inspiração e mais expiração, tapar o copo de café com a mão, desviar dos familiares e enfermeiros sem encostar em nada. Uma verdadeira maratona sem premiação.

Ao final da ala 200 entrou à esquerda e se livrou dos corredores das enfermarias (essas curvas são sempre perigosas, pois corre-se o risco de trombar com uma maca, um carrinho de alimentação ou de lixo, e até mesmo um médico - coisa muito rara, visto tratar-se de um hospital público). Seus pensamentos e questionamentos brotavam independentes de sua vontade, enquanto voltava ao seu refúgio-sala-cela-cubículo.

Passou pelos relógios de ponto com suas luzes verdes à piscar, e sem hesitar olhou as horas – 22h41 –, embora soubesse que só sairia dali na manhã do dia seguinte. Logo mais à frente estava o guarda-volumes onde pessoas conversavam, mas como já havia dado boa noite na primeira vez que passou resolveu não falar nada e tomou seu rumo. Sua sala ficava em frente à recepção da administração, mais pontos eletrônicos piscando na parede, salas fechadas, luzes apagadas, uma pessoa fumando na janela a uns quatro metros enquanto conversava com outra que estava no lado de fora.

Entrou. Sentou-se ali e se viu só. Mas a solidão era sua amiga de longas datas, e aquilo foi tão reconfortante quanto desesperador.

Um comentário:

  1. Difícil comentar, de um lado a maldita teoria literária me diz que não posso fazer análise mimética do que é realidade (e isso é demasiado fatual) e muito menos criticar... do outro o meu corujismo exacerbado pela autora, pela personagem...
    Só lembrando que há estágios do ser que se torna irrelevante o "não tocar em nada". Além desta tua companheira de longa data que me desperta ciúmes. "Además", mui bueno, continue 'escrevinhando', é tão igualmente reconfortante e desesperador.

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