Faltava-lhe um braço, mas logo este surgiu junto com o pedaço da manga do vestido. De subto sentiu o pincel encostar seu rosto, o que lhe fez corar pelas cócegas coloridas. As pinceladas rápidas produziam um mundo ao seu redor, a forma indefinida das copas das árvores se misturavam ao azul cobalto do céu.
Não sei ao certo o que Cézanne escutava naquela manhã, sei que a melodia doce lembrava uma aquarela ainda úmida pelo recente toque da água. Trabalhava os cabelos dela com bastante afinco, e na leveza de cada fio descobriu que à medida que se pinta, desenha-se. Como raios de sol, os fios se transformavam em pássaros, que de longe podiam avistar o futuro à sua frente. A fuga da representação produzia traços tortos, sem perspectiva e ponto-de-fuga, o olhar se punha a trabalhar, e sem pestaneja Cézanne pintava o cheiro das árvores.
O tempo se move junto com a imagem, e ela se vê em movimento estático. Sentia-se feliz por fazer parte de um mundo sensível ao coração, já não sentia o vigor da vida desde que havia presenciado a última tragédia grega, e agora, nesse espaço heterogêneo, seria eternamente vida.
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